CULTO E MÚSICA
AS BASES ESPIRITUAIS
DO CULTO CRISTÃO
Psicólogos e
sociólogos debatem a procura da razão porque o homem adora. A antropologia e a
arqueologia descobrem em todas as civilizações a presença da religião e do
culto. Supõem ser isto resultado do medo, do instinto gregário, do desconhecimento
do futuro etc. Numa coisa todos concordam: o homem é um ser adorador, tem
espírito religioso, adora. Mas, quando afirmamos isto, outra batalha se forma:
qual a adoração verdadeira? Existe um lugar, uma fonte, um modo de adorar
verdadeiros? Existe adoração falsa? Era nestas interrogações que a alma da
mulher samaritana se debatia. Ela estava presa ao pecado do adultério, presa à
confusão religiosa. Na sua época, a babel religiosa, existia. Ela confessa:
“Nossos pais adoravam neste monte (Samaria), vós (Judeus) dizeis que em
Jerusalém é que se deve adorar”. Ela poderia dizer mais: “nós aceitamos somente
o Pentateuco como livro sagrado e vós dizeis que os salmos e os profetas também
o são”. Afinal, o que se deve seguir? Qual a verdadeira religião? Não poucos de
nós passamos pelas mesmas angústias daquela mulher. Mas, graças a Deus que ela
encontrou-se com o Senhor Jesus. E a conversa que teve com o nosso mestre vem
respondendo, há dois milênios, estas interrogações espirituais. Em sua conversa
com a mulher, Jesus apresentou: AS BASES ESPIRITUAIS DO CULTO CRISTÃO.
NÃO TEM UM LUGAR
ADORATIVO
Podemos afirmar que
hoje, ligar a verdadeira adoração a algum lugar da terra é superstição. Jesus
disse: “A hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai”.
A verdadeira adoração é de um Deus Espírito, e nesta condição limitar a
divindade é ir de encontro à Sua eterna e infinita natureza. Deus não tem um
túmulo sagrado, nem uma Aparecida do Norte, nem uma Roma, nem uma Fátima, nem
uma Jerusalém. Ele não se prende à rua tal, número tal; não tem lugar, gruta,
nem cidade. Nem seu poder, nem sua pessoa se limitam a um pedaço de pau, nem a
um ídolo de ouro, prata ou barro. Não é propriedade particular da igreja tal e
nem é monopólio de organização nenhuma. Deus é Espírito e Ele por Jesus Cristo
e pelo Santo Espírito, se coloca no interior do homem e aí é adorado, servido,
e trabalha esteja este homem no ventre de um peixe, no fundo do mar, pisando no
solo da lua, ou presente num templo. A superstição busca lugar, ídolos,
símbolos, amuletos, coisas ungidas, centros peregrinativos, gurus,
missionários, bispos e reverendos. Mas o louvor cristão busca adorar em
Espírito e em verdade.
NÃO É REFLEXO DO
CERIMONIALISMO
Deus é Espírito e
quer adoração em Espírito. O louvor cristão é espiritual. O cerimonialismo visa
à “sensação”. Procura “impressionar”. O homem adora a liturgia, o brilho, a
festa e as emoções. O cerimonialismo se estabelece num culto rígido de gestos
ensaiados ou num culto carismático de danças, palmas e sensações. Mas Jesus
afirma que o louvor cristão não se prende a aparatos religiosos. Quando Ele
esteve presente na festa da dedicação, no instante da cerimônia do derramamento
de água pelos sacerdotes, Ele se pôs de pé em lugar de destaque e proclamou:
“Quem tem sede, venha a mim e beba” (João 7:37). Só nEle encontramos a
satisfação que o cerimonialismo jamais poderá oferecer. O louvor verdadeiro não
é produto fabricado por gestos sacerdotais ou pastorais, nem nas palavras
mecanizadas de orações repetitivas; nem é resultado de frases e gestos
exorcizantes ou expressões corporais. É a aproximação da alma na sua simplicidade
e que, por meio de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, se chega a Deus e,
bebendo da água da vida, encontra satisfação, jamais achada nos “gestos ensaiados ou espontâneos” dos homens.
NÃO VEM DE DEDUÇÕES
LÓGICAS
Os samaritanos não
aceitavam a plenitude bíblica. Só criam no Pentateuco. Eis aqui o erro deles.
Tinham abandonado a Bíblia. A confusão entrara em suas mentes. Jesus mostrou
que o louvor é revelado pelo Pai. A adoração verdadeira não é fruto da
criatividade, não carece de sanções doutorais, nem precisa de endosso humano. Não
tem que ser fruto de conclusão lógica.
TEM QUE SER
CRISTOCÊNTRICO
A adoração é um ato
divino humano. É o encontro do eterno com o passageiro. Do infinito com o
finito. Do Espiritual com o carnal, de Deus com o homem. No culto, no louvor,
Deus e o homem se encontram. Por isso deve haver um mediador Deus-Homem. Um homem
verdadeiro e um Deus verdadeiro devem mediar o louvor. Este perfeito homem,
perfeito Deus, é Jesus Cristo. A mulher sabia que, “quando viesse o Messias”,
tudo seria solucionado. Jesus se apresentou como sendo o que estava por vir.
Ele mesmo disse: “Ninguém vem ao Pai senão, por mim” (Jo 14.6). É impossível o
louvor sem a mediação de Jesus Cristo. Tentar adorar a Deus sem estar em
comunhão com Jesus é condenação assegurada.
TEM QUE SER UNIVERSAL
A Bíblia diz que os
discípulos voltaram e se admiraram que Jesus estivesse conversando com uma
mulher, e ainda “samaritana”. Religiões racistas e preconceituosas não podem
ter o louvor verdadeiro. Deus não tem etnias privilegiadas. Agora, sob a
dispensação do Evangelho da graça, todos os povos, línguas, tribos e nações são
admitidos ao culto verdadeiro. Devemos fugir de religiões segregarias e
acepcionistas; elas ignoram a graça de um Deus de amor, pois, em Cristo “não há
homem, mulher, bárbaro, cita, sábio ou inculto”, somos em Cristo, todos
admitidos ao seu culto. Não cremos em religiões fascistas, bairristas, onde se
defende a guetificação cultural, regional, ignorando o caráter universal do
culto cristão. No louvor cristão, todos os povos da terra são, por meio de
Jesus, recebidos pelo Pai, que não faz acepção de pessoas.
TEM QUE SER
TRANSFORMADOR
A mulher, após o
encontro com Jesus Cristo, teve sua vida mudada. Abandonou a prostituição e se
tornou uma missionária. O vero louvor eleva o caráter de quem adora. Fala à
mente, ao coração, à vontade e ao espírito. Não existe no louvor cristão aquela
história de que o “culto terminou”. Há um prosseguir adorativo na vida
missionária, transformada e transformadora. O louvor cristão se faz presente
dia-a-dia na obediência, em casa; no respeito, na igreja; na lealdade, no
trabalho; na fidelidade, no amor; no cuidado, em tudo. O louvor é ato vitalício.
Quando os homens vêm ao louvor — se realmente adoram — não voltam os mesmos! O
louvor cristão fortalece o caráter, restabelece a fé, santifica o espírito.
OS ADORADORES SÃO
PROCURADOS POR DEUS
Jesus disse à mulher
samaritana que Deus busca seus adoradores! Vivemos sob a influência do Marketing
da propaganda. Sabemos que boa divulgação resulta em bom (número) auditório.
Encher os templos constitui, hoje, prova de bons ministros. Apelações, shows,
estrelas... e a igreja está uma bênção! Cheia... cheia... Mas Jesus
disse que é o Pai quem procura seus adoradores, são escolhas divinas:
“Não fostes vós quem me escolhestes a mim, pelo contrário eu vos escolhi”.
A verdadeira adoração é a prestada por aqueles que o Espírito Santo reúne na
pureza da busca sincera, do louvor verdadeiro.
A BASE BÍBLICA DO
CULTO CRISTÃO
A confissão de fé
adotada pela igreja, afirma que o objetivo principal da vida humana é a
glorificação de Deus e o alegrar-se n’Ele. Isto faz do Culto “o ato mais importante,
mais relevante, mais glorioso na vida do homem” (Karl Barth). Contudo, quantos
crentes sabem distinguir entre a verdadeira e a falsa adoração? Será que você
tem cultuado de um modo que agrada a Deus? A base da sua adoração é o ensino
bíblico ou a experiência humana?
O VOCABULÁRIO BÍBLICO
Para alcançarmos uma
visão correta sobre o culto cristão, é mister examinarmos alguns termos usados
pelos escritores bíblicos:
1. “Latreía”
Seu significado
principal é “serviço” ou “culto”. Denota o serviço prestado a Deus, pelo povo
inteiro e pelo indivíduo, tanto externamente no ritual, como internamente no
coração. Em outras palavras é o serviço que se oferece à divindade através do Culto
formal, ritualístico e através do oferecimento integral da vida (Êx 3:12; 10:3;
7-8; Dt 6:13; Mt 4:10; Lc 1:74; 2:37; Rm 12:1).
2. “Leitourgía”
Composto de duas
palavras gregas, “povo” (Iaós) e “trabalho” (érgon), significa “serviço
do povo”. No Velho Testamento, aplicava-se ao serviço oferecido a Deus pelo
Sacerdote, quando apresentava o holocausto sobre o altar de sacrifícios (Js 22:27;
1 Cr 23:24, 28). No Novo Testamento, aplica-se essencialmente ao serviço que
Cristo oferece a Deus, pois ele é o nosso “Liturgos” (Hb 8:2, 6). Em suma, “Liturgia”
é o serviço que o pastor e toda a igreja oferecem a Deus à semelhança do serviço
realizado por Jesus (Rm 15:16; Fp 2:17; At 13:2).
3. “Proskunein”
Originalmente,
significava “beijar”. No Velho Testamento significa “curvar-se”, tanto para
homenagear homens importantes e autoridades (Gn 27:29, 1 Sm 25:23), como para
“adorar” a Deus (Gn 24:52; 2 Cr 7:3; 29:29; SI 95:6). No Novo Testamento, denota
exclusivamente a adoração que se dirige a Deus (At 10:25-26; Ap 19:10; 22:8-9).
Em seu emprego absoluto, significa “participar do Culto Público”, “fazer orações”,
“entoar hinos” e “adorar” (Jo 12:20; At 8:27; 24:11; Ap 4:8-11; 5:8-10;
19:1-7). Esta adoração compreende o ato externo e a atitude interna
correspondente.
4. Outros termos
Os vocábulos “Eusebia”
(piedade) e “Thresfeia” (religião), aparecem no Novo Testamento para
expressar a conduta do adorador (2 Tm 3:12; Jo 9:9-35; At 26:5; Tg 1:26). Quem adora mostra a sua devoção
através de uma vida piedosa.
EMBASAMENTO TEOLÓGICO
A adoração cristã se
fundamenta na Nova Aliança (Hb 8). Está franqueada ao crente a comunhão com
Deus, pelo novo e vivo caminho aberto por Jesus Cristo (Hb 10:19-22). Portanto,
ofereçamos sempre por Ele (Jesus Cristo) a Deus “sacrifício de louvor” (Hb
13:15a). Em todo Novo Testamento temos informações importantes sobre o culto:
1. Mediador do Culto
O Culto Cristão é
mediado por Jesus Cristo, o sumo sacerdote que se identifica com os
adoradores(Hb 2:12, 13; 16-18; Jo 17:24; Mt 18:20).
2. Sacerdote
Cristo fez de seus
seguidores sacerdotes de Deus, isto é, pessoas cujo culto, Deus aceita (Ap
1:5,6; 5:8-10; 1 Pe 2:9).
3. Reverência
O Culto Cristão não
deve ser profanado, mas oferecido com reverência e temor (Hb 10:28-31;
12:28-29).
4. Natureza do Culto
O Culto Cristão, não
é meramente um evento sócio-cultural (Hb 4:16; 1 Jo 1:5-10).
OS PRÉ-REQUISITOS DO
CULTO
“O cumprimento de um
ritual não basta para que haja culto. É indispensável a aceitação, por Deus do
culto oferecido. Deus estabelece condições para aceitar a adoração de homens. A
ignorância dessas condições, ou sua violação, transforma o ritual em exercício
unilateral enervante com sérias conseqüências para os participantes” (Boanerges
Ribeiro).
Vejamos os
pré-requisitos do culto sem os quais não alcançamos comunhão com Deus, ao
contrário provocamos a Sua ira:
1. Fé (Hb 10:38;
11:6)
2. Envolvimento total
da vida (Rm 12:1-2; Mc 12:30; Lc 10:27)
3. Deve ser dirigido
a Deus (Mt 4:10; 6:6; Hb 13:15)
4. Modelado pelo
ensino bíblico (Mt 15:9; Hb 4:12-13; Hb 12:28)
5. Mediado por Cristo
(Hb 9:12, 24-28; 10:19)
A NECESSIDADE E
ESSÊNCIA DO CULTO
O “tédio religioso”
sempre foi um dos maiores inimigos do Cristão, no que se refere à sua vida
espiritual. O tédio é um estado mental resultante do esforço para manter interesse
por uma coisa pelo qual não temos o mínimo interesse. Por exemplo: participar
de uma escola dominical, quando o nosso desejo era estar na praia. Este fato
tem levado a igreja, em nossos dias, a oferecer certos atrativos ao povo, no que
tange ao culto. “Em muitos lugares raramente é possível ir a uma reunião cuja
única atração seja Deus. Só se pode concluir que os filhos de Deus estão
entediados dEle, pois é preciso mimá-los com pirulitos e balinhas na forma de
filmes religiosos, jogos e refrescos” (A. W. Tozer). Por esta razão,
propomo-nos discutir a necessidade e a essência do culto.
A NECESSIDADE DO
CULTO
O culto é necessário
pelas seguintes razões:
1. Finalidade do Homem
No culto, o homem
acha a razão da sua existência. Ele foi criado para a adoração. “O fim supremo
e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Fora da
posição de adorador de Deus, o homem não encontra o sentido para vida (leia 1
Co 10:3 1; Rm 11:36).
2. Obediência
O culto foi
instituído e ordenado por Jesus Cristo. Como diz Karl Barth: “Na adoração, não
somos chamados a expressar nossas necessidades ou possibilidades, mas sim a obedecer”.
Quando a igreja se reúne para louvar, orar, pregar a Palavra e celebrar os
sacramentos, ela simplesmente obedece (Mc 16:15 - 16; At 1:8; 1 Co 11:24, 25;
At 20:7).
3. O Espírito Santo
O culto é suscitado e
expresso pelo Espírito Santo. A salvação provoca adoração (At 10:46). O perdão
restaura a capacidade de adorar, anteriormente perdida por causa do pecado.
Veja alguns exemplos: (Lc 5:25; 13:13; 17:15; 18:43; 1 Co 12:3 e 2 Co 1:22).
4. Utilidade
O culto é útil. Ele
tem utilidade didática, sociológica e psicológica. No ato do culto aprendemos a
ser cristãos. Ele é a escola por excelência do cristão. No culto há também
coesão, integração e comunhão pessoal (1 Co 10:17; At 2:42-47). Por fim, o culto
traz paz, descanso e cura para a alma dos fiéis.
A ESSÊNCIA DO CULTO
Em meio às múltiplas
maneiras de cultuar, há um elemento imprescindível à adoração: o AMOR. A
essência da adoração é o amor. É totalmente impossível adorar a Deus sem
amá-lo. E Deus nunca se satisfez com menos que “TUDO”. “Amarás o Senhor teu
Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6:5;
Mt 22:37). “Sem o incentivo do amor por Deus, o culto não passa de palha, pura
casca, isento de qualquer valor. Pode até se tornar em culto a satanás” (Russel
Shedd). Afirmamos, entretanto, que o culto verdadeiro requer amor de todo o
coração, amor integral da mente e todo o nosso esforço.
1. Amor de Todo Coração
Para o Hebreu, o
“Coração” é considerado a sede da mente e da vontade, bem como das emoções. O
termo “Alma” refere-se à fonte da vida e vitalidade (Gn 2:7,19), ou mesmo o
próprio “ser”. Estes dois termos indicam que o homem deve amar e adorar a Deus
sem qualquer reserva em sua devoção. É no coração humano que Deus se revela (At
16:14; 2 Co 4:4,6). É, portanto com o coração que devemos expressar nosso amor
por Ele.
2. Amor Integral da Mente
A adoração envolve
também o exercício da mente. “Dianóia”, em grego, significa a capacidade
de pensar e refletir religiosamente (1 Jo 5:20; Ef 4:18; Mt 24:15). Este entendimento
é dádiva divina (Lc 24:25; Ef 1:17,18). Portanto, a adoração deve ocupar a
mente, de maneira a envolver a meditação e consciência do homem. Em Romanos
12:2, Paulo estabelece que o culto cristão deve ser racional (“LOGIKEN LATREÍA”).
Amar a Deus com entendimento é um desafio para o crente (Mc 12:30).
3. Amor que Exige Todo Nosso Esforço
Na adoração cristã,
Deus exige ser amado com toda a força do adorador (Mc 12:30; Lc 10:27 e Dt
6:5). O termo “Força” (Ischuos) se refere à força e poder de criaturas vivas
(Hb 11:34); exige-se que o cristão gaste todas as suas energias físicas em atos
de amor por Deus (Rm 12:1; 2 Co 2:15,16). O amor a Deus expressa-se no serviço
prestado por meio do coração (1 Co 13:3). Portanto, amar a Deus com “Toda a
força” representa gastar a vida e energia unicamente com expressões de lealdade
e afeição a Deus.
OS ELEMENTOS DO CULTO
Os elementos do culto
são os meios usados pelo adorador para expressar o culto. São as “formas e
funções por meio das quais a recepção e a ação litúrgica se efetivam e, mediante
sua cooperação orgânica, suscitam e expressam o evento cultual”(O. Haendler). Os
principais elementos de culto são: a Bíblia, a oração, a música, os sacramentos
e as ofertas. O Catecismo de Heidelberg, redigido por Zacarias Ursino e Gaspar
Oliviano, publicado em 1563 e usado pelas Igrejas Reformadas, diz que o cristão
deve “freqüentar assiduamente à igreja, para ouvir e aprender a Palavra de
Deus, participar dos sacramentos, invocar publicamente ao Senhor e contribuir
para as necessidades”. Reflitamos, portanto, sobre os elementos do culto e a
sua utilização hoje.
A BÍBLIA SAGRADA
A Bíblia é a Palavra
de Deus. Ela é o elemento mais importante do culto cristão, pois “todo ato
cristão de adoração é sustido pela Palavra de Deus. Sem ela o culto esvaziar-se-ia
de sua substância e perderia o traço que o separa de um culto não cristão” (J.
V. Allmen). As verdades bíblicas devem modelar o ato de culto, bem como as
idéias e o comportamento do adorador (1 Sm 15:22-23; Mt 15:9). A Bíblia aparece
no culto sob diversas formas. As principais são a leitura (individual, conjunta
e alternada), a pregação, o canto (congregacional, coral, conjuntos e solos) e
as saudações e bênçãos pastorais (1 Tm 4:13; 1 Ts 5:27; Ap 1:3; 1 Co 11:23-29; Lc
4:16-30; 2 Co 13:13).
A ORAÇÃO
Orar é cumprir uma
ordem do Senhor (Lc 18:1 e 1 Ts 5:17). A oração é indispensável ao cristão, que
deve praticá-la individualmente e coletivamente (Mt 6:5-8 e At 12:12). A oração
é “o privilégio supremo dos cristãos, concedido por Deus ao elevá-los à
categoria de filhos. A oração só é possível dentro da família de Deus: é o
exercer os direitos de filhos no contexto dessa família (Rm 8:15 e Gl 4:6). Os filhos
são herdeiros, participantes responsáveis, por conseguinte, de toda a economia
da família. Na família do Pai os filhos têm o direito de tomar a palavra. A oração
é, portanto, a autorização que Deus dá a que os filhos digam o que têm a dizer
com referência aos assuntos que a eles dizem respeito” (citado por V. Allmen). A
Bíblia nos ensina que a oração faz parte do culto particular e público. As
orações nas reuniões da igreja devem ser uma constante hoje, como foi no
passado (At 1:14; 4:24; 12:5; 21:5; Lc 1:10; Mt 18:19). As mesmas devem ser
dirigidas a Deus (Mt 4:10), por meio e em nome de Jesus Cristo (Ef 2:18; Hb
10:19), acompanhadas de humildade e ação de graças (Gn 18:27; Fp 4:6; Cl 4:2).
Podem ser feitas em silêncio e audivelmente, nas posturas diversas (Mc 11:25;
At 20:36; Mt 26:39).
A MÚSICA
A música também se
destaca como um elemento indispensável ao culto. A igreja sempre usou hinos e
cânticos na expressão do seu culto (Rm 15:9; 1 Co 14:15; Ef 5:19; Cl 3:16; Tg
5:13; Ap 5:9; 14:3; Mt 26:30). O professor Bill Ichter, autoridade em música,
descreve algumas características da música que deve ser usada na igreja:
1. Quanto à Expressão
Deve expressar uma
verdade bíblica.
2. Quanto à Doutrina
Deve expressar
doutrinas corretas.
3. Quanto à Devoção
Deve ser
caracteristicamente devocional.
4. Quanto à Forma
Deve possuir boa
forma literária.
5. Quanto ao Estilo
Deve ter um bom
estilo musical.
6. Quanto à Ocasião
Deve ser apropriada à
ocasião em que estiver sendo usada.
7. Quanto ao Uso
Deve ser adaptada ao
uso da congregação.
8. Quanto ao Alcance
Deve ser apropriada e
ao alcance da capacidade dos cantores. O apóstolo Paulo nos revela que músicas
nas igrejas devem ser: “salmos, hinos e cânticos espirituais”,entoados para o
louvor a Deus e a edificação mútua dos irmãos (Cl 3:16).
OS SACRAMENTOS
“Os sacramentos são
santos sinais e selos do pacto da Graça, imediatamente instituídos por Deus,
para representar Cristo e os seus benefícios e confirmar o nosso interesse
nEle, bem como para fazer uma diferença visível entre os que pertencem à igreja
e o resto do mundo, e solenemente obrigá-los ao serviço de Deus em Cristo,
segundo a sua palavra” (C. Fé, cap. XXVII, 1). Esta definição nos mostra que o
sacramento é “um sinal externo de uma graça interna”. Há somente dois
sacramentos instituídos por Jesus: o Batismo e a Santa Ceia (Mt 28:19 e 26:26-30).
Ambos devem ser celebrados publicamente administrados somente pelos pastores
ordenados (Hb 5:4).
OFERTÓRIO
Atualmente, no
Brasil, os evangélicos são questionados quanto à contribuição financeira para
as igrejas. Há uma razão óbvia: a proliferação de igrejas que comercializam
bênçãos. Muitos perguntam: “É verdade que na sua igreja todos devem dar 10% do
salário ao Pastor?” Isso nos leva a explicar, que o ato de ofertar ou
contribuir faz parte do culto. O ofertar sempre foi um elemento integrante da
adoração a Deus e uma expressão de fidelidade (Dt 12:4-7; Ml 3:10; Mc 12:41-44;
2Cr 8:12-18; Hb 13:16).“Ninguém se iluda: o reino de Deus não se edifica com
dinheiro, mas com pessoas. Após o novo nascimento, contudo, não devemos deixar
de dar o dízimo. Não é a igreja que precisa de dinheiro, como às vezes dizemos.
Nós é que precisamos trazer dinheiro à igreja: nosso progresso espiritual
depende disso – 2 Co 9:5,10” (B. Ribeiro). Em suma, ofertar é cultuar e cultuar
é ofertar.
O LUGAR E O TEMPO DO
CULTO
Alfred Thomas
afirmou: “Bancos vazios no templo do senhor significam corações vazios, lares
vazios da verdadeira religião, com a irreverência do domingo, e a conseqüente
ruína espiritual”. Isto é correto e reflete uma dura verdade: o não
reconhecimento do senhorio de Jesus Cristo no tempo e no espaço. “Eu sou o Alfa
e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim” (Ap 22:13). “... tudo
foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1:16b). Jesus é o Senhor de tudo. “Sem
domingo, nenhuma adoração; sem adoração, nenhuma religião; sem religião, nenhuma
moral; sem moral, então, o quê?” (Craword Johnson). Vejamos o que nos ensina a
Bíblia, sobre a santificação do espaço e do tempo.
O LUGAR DO CULTO
Os lugares de culto
são lugares santos, separados para um fim específico, a saber, o de tornar-se
palco da presença de Cristo, o lugar do encontro entre o Senhor e o Seu povo.
Geralmente, por decisão da Igreja, um lugar é planejado, construído e separado
para o serviço divino. O sucessor de Zuínglio, H. Bullinger comentando o assunto
diz: “dedica-se a Deus e aos usos sagrados, ou em outras palavras, os separa do
uso comum para destiná-los e votá-los, segundo a vontade de Deus, a um uso
singular e sagrado”. A Confissão Helvética Posterior, falando sobre os lugares
de culto, diz: “Ora, como cremos que Deus não habita em templos feitos por mãos
humanas, também sabemos que os lugares dedicados a Deus e ao Seu serviço não
são profanos, mas sagrados, por causa da Palavra de Deus e do uso de coisas
santas a que são destinados; e os que freqüentam tais lugares devem
comportar-se com todo decoro e reverência, lembrando que estão num lugar santo,
na presença de Deus e dos seus santos anjos”. Obviamente, é necessário evitar
toda superstição. Não devemos transformar o lugar de culto num “espaço tabu” e,
nem tampouco, achar que se possa fazer seja lá o que for no lugar de culto. A
dedicação de espaço para o culto é inevitável enquanto nos acharmos neste
mundo. Não somente temos testemunhos nesse sentido no Velho Testamento (Dt
12:5,11; 15:20; 1 Rs 5:5), mas também indícios de que a Igreja usou espaços separados,
desde o momento em que se lhe tornou possível a construção de lugares de culto.
Teologicamente, é importante estabelecer alguns pressupostos:
1. O Novo Testamento
Sob a Nova Aliança, o
Senhor não escolheu um lugar específico para a manifestação da sua presença (Jo
4:20-24).
2. O Templo no Novo Testamento
A partir do
Pentecostes, a IGREJA, o “povo de Deus”, torna-se o templo (1 Co 3:16; Ef
2:20-22; 1 Pe 2:4-10). Não somente a Igreja na sua dimensão comunitária, mas cada
membro individualmente é um templo, dedicado a proclamar, a refletir e a louvar
o seu Senhor (1 Co 6:19s).
3. O lugar do Culto
O lugar do culto
cristão é a Igreja reunida, em nome do Senhor Jesus (Mt 18.20). “A Teologia do
Velho Testamento já mostra que o lugar por excelência da presença de Deus e,
conseqüentemente, o lugar de culto, é o povo que invoca o seu nome. E com o seu
povo que ele habita, onde quer que se encontre esse povo. E se é verdade que
existem lugares sagrados, não é para insinuar que Deus se localize exclusivamente
em tais lugares, mas, sim, mostrar que Deus intervém no mundo e reivindica para
si a soberania sobre a terra toda. É também para demonstrar que Deus convoca o
seu povo para encontrar-se com ele dentro dos limites deste mundo” (Von
Allmen).
O CULTO E O TEMPO
“A adoração, quando
expressa em ritual, exige tempo. Sob o antigo pacto Deus fez provisão para
períodos de tempos diários, semanais, anuais e mesmo de gerações, para o
cumprimento da obrigação de culto em Israel. O sacrifício diário (Nm 28:1-8), o
descanso do sábado ou do sétimo dia, os primeiros dias do mês e as cinco festas
anuais do período pré-exílico foram divinamente determinados” (Russel Shedd). A
guarda semanal do sábado é um exemplo fundamental do tempo separado para Deus
(Êx 20:11; 31:13). Neste mandamento, Deus lembra o homem da sua responsabilidade
em adorá-lo, observando tempos e lugares santos. Sob o Novo Pacto, o cristão vê
no tempo a concretização da sua salvação (Gl 4:4-5). Os tempos judaicos
(festas, sábado, etc.) não passavam de sombras das coisas que haviam de vir.
Jesus Cristo é a realidade (Cl 2:17). Jesus constitui-se o verdadeiro “sábado”
(Mc 2:23-28 e Mt 11:28-30). Para a igreja primitiva, o descanso “consiste em
consagrar a Deus, não um dia, mas, sim, todos os dias, e em abster-se, não do trabalho
corporal, mas sim do pecado” (Von Allmen). O fato de Cristo haver cumprido em
si o sábado, levou a igreja a escolher um novo dia para o culto: o “dia do
Senhor” ou “o primeiro dia da semana” (At 20:7; Mt 28:1; Mc 16:1; Lc 24:1; Jo
20:1; Ap 1:10). Sem dúvida este dia é o domingo.
Entretanto, qual o
significado do domingo?
1. Um Memorial
É um memorial da
ressurreição de Cristo.
2. Um Símbolo
É o símbolo de um
novo começo.
3. Comunhão Cristã
É um dia litúrgico. Socialmente,
você pode descansar em qualquer outro dia da semana, dependendo sempre da
sociedade em que você está inserido. Contudo, o domingo é o dia da comunhão
cristã, da Nova Aliança. O culto celebrado no domingo relembra o evento
fundamental à existência da Igreja — a ressurreição de Cristo. Em suma, a
adoração pelo Espírito acaba com o conceito de tempos designados para o culto. Contudo,
a Igreja como povo deve manifestar-se por meio do ato de reunir-se. Não é possível
Igreja sem culto. O dia específico é o domingo (1 Co 16:2), porque lembra à Igreja
a vitória de Jesus sobre o pecado, o que lhe permite a existência.
O CULTO REFORMADO I –
ALGUNS DOS SEUS PRINCÍPIOS
A preocupação dos
Reformadores era de ter um “culto legítimo” — legítimo perante Deus. Esta deve
ser a nossa preocupação também. Podemos aprender muito com os resultados dos
trabalhos de homens como Lutero e Calvino. Dizendo isto, não podemos esquecer
que a história não é normativa. A Escritura é a única regra de fé e de prática.
Foi a Escritura que levou os Reformadores à reforma do culto. “Porventura a
palavra de Deus se originou no meio de vós, ou veio ela exclusivamente para vós
outros?” (1 Co 14:36). Esta palavra apostólica justifica um estudo do Culto
Reformado com atenção especial à história deste culto. O título deste estudo
fala de princípios do Culto Reformado, porque não existe algo como “O culto
reformado”. Não existe um só “culto reformado”. No século XVI havia uma grande
variedade de modelos de culto nas Igrejas Reformadas na Europa. O próprio Calvino
fez vários modelos para as congregações que ele serviu como pastor. Mas
certamente podemos descobrir princípios comuns em todos estes modelos.
CULTO LEGÍTIMO
CONFORME AS ESCRITURAS
Parece que o termo
“culto legítimo” é de Calvino. Ele ensina no início da sua grande obra, As Institutas,
que há uma estreita ligação entre o conhecimento de Deus e a adoração a Deus. O
“culto legítimo” é apenas possível dentro dos moldes da Revelação de Deus.
Oculto a Deus é determinado, caracterizado e colorido pela Revelação de Deus.
Em outra parte das Institutas (IV.X.30), Calvino diz: “Eu aprovo exclusivamente
essas ordenanças humanas que sejam não somente fundadas na autoridade de Deus,
mas também tomadas da Escritura e, por isso, inteiramente divinas”. Temos que
adorar a Deus da maneira que Ele nos ordenou. Este era um princípio imutável
para Calvino. Ao mesmo tempo, este princípio levou Calvino a dizer que
preceitos para o culto e formas de expressão podem ser variáveis quando não há
ensino expresso sobre eles na Escritura. Resumindo, o culto será legítimo se estiver
em conformidade com as Escrituras. Este é o primeiro grande princípio do Culto
Reformado. Isto significou o rompimento com a liturgia romana. Os Reformadores
chegaram à conclusão de que esta liturgia contém elementos pagãos e judaicos. O
uso de imagens é um exemplo típico da necessidade do pagão de ter um deus
visível que ele pode manipular. Tal uso ofende a suprema majestade do Deus
Vivo. Calvino sentenciou: A liturgia Romana imita o culto mosaico do Velho
Testamento e nega a vinda de Cristo, que é o fim das cerimônias judaicas (Cf.
Rm 10:4). Especialmente a Carta aos Hebreus mostra que o próprio Cristo
reformou o culto, através de seu ato salvífico. Calvino sempre defendeu a
unidade essencial entre a Antiga e a Nova Aliança. Mas ele sabia que com Cristo
chegou a fase da Nova Aliança, com seu novo modo de cultuar a Deus. Adoramos a
Deus em espírito e em verdade (Cf. Jo 4:23). O culto romano negava esta
realidade. Por isso, o culto tinha que ser reformado por nossos irmãos do
século XVI.
CULTO REFORMADO VOLTA
AO CULTO ORIGINAL
O Culto Reformado,
rompendo com a antiga liturgia romana, era por isso mesmo uma volta ao culto
original da igreja dos apóstolos e dos chamados “Pais da Igreja” (líderes
destacados da Igreja Antiga dos séculos II a IV). Neste segundo princípio do Culto
Reformado descobrimos, por exemplo, no título que Calvino deu à liturgia de Genebra
de 1542: Forma de culto “conforme o costume da Igreja Antiga”. Como era, para
Calvino, o culto original da Igreja Apostólica? Ele estava consciente de que a Escritura
não nos oferece um modelo detalhado para nossos cultos dominicais. Mesmo assim,
para Calvino, o Novo Testamento contém alguns elementos básicos que nunca podem
faltar nos cultos. Reconhecemos então em Atos 2:42, um verso que, para Calvino,
era fundamental: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no
partir do pão e nas orações”. Nas suas Institutas (IV.XVll.44), Calvino
escreve, baseando-se neste verso: “Assim, de modo geral, haver-se-ia de agir
que nenhuma reunião da igreja se fizesse, sem a Palavra, as orações, a
participação da Ceia e as esmolas”. Como foi que Calvino aplicou os elementos
principais da Escritura em seu modelo para um culto reformado? O primeiro
modelo, que encontramos nos escritos de Calvino está nas Institutas, já
na primeira edição de 1536 (IV.XVII.43). Encontramos as seguintes partes:
orações públicas; o sermão; celebração da Santa Ceia; exortação à fé sincera e
à confissão dessa fé; ação de graças e louvores em cânticos; despedida em paz.
A celebração da Santa Ceia inclui a leitura das palavras da instituição,
proclamação das promessas do Senhor nestas palavras, vedação à comunhão
daqueles que o Senhor barrou dela, oração, cantar salmos ou leitura bíblica, e
por final a própria comunhão. Calvino sempre permaneceu fiel a este resumo de
seu programa litúrgico que ele escreveu na idade de 26 anos. Queremos ainda
perguntar por que Calvino tinha tanta atenção para a Igreja Antiga e aos Pais
da Igreja?
1. Primeiro: porque ele queria cultuar a
Deus na comunhão com todos os santos (Ef 3:18).
2. Segundo: porque o testemunho dos Pais
da Igreja não apoiava o culto romano, como a Igreja Romana dizia.
3. Terceiro: a razão mais importante do
interesse para a Igreja Antiga era porque ela preservou o culto bíblico.
Os Pais da Igreja em
si não eram importantes para Calvino, e, sim, a fidelidade deles à doutrina do Evangelho,
também na área da liturgia. Por isso, a reforma do culto no século XVI significa
a volta à origem mais antiga do culto, e não um rompimento revolucionário com o
passado. O Culto Reformado deu uma volta por cima da “antiga” liturgia romana,
de volta às fontes que eram os ensinos dos apóstolos de Cristo. Como a Igreja
Antiga estava perto da era dos apóstolos, Calvino usou os testemunhos dos Pais
da Igreja na sua reforma do culto. Ele restaurou a Santa Ceia como ato de
comunhão entre Cristo e seus fiéis e como ação de graças. Contra a prática de
missas privadas, enfatizava Calvino que a Santa Ceia devia ser celebrada na
presença da congregação inteira, nos cultos dominicais, como na Igreja Antiga.
Calvino colocou no início do primeiro culto dominical a confissão dos pecados
seguida de palavras de absolvição, conforme a prática antiga. Outra prática da Igreja
Antiga que Calvino restaurou era a de recitar ou cantar o Credo Apostólico no
culto como renovação do juramento de fidelidade ao Deus Triúno.
LIBERDADE CRISTÃ NA
LITURGIA REFORMADA
Parecem dois
princípios contraditórios: querer um culto somente baseado nas Escrituras e
permitir liberdade na liturgia. Mas não há nenhuma contradição, se entendemos o
que é liberdade cristã. Ela é a liberdade que Cristo nos dá em Sua Palavra. Por
isso, esta liberdade tem seus limites na própria Palavra de Cristo, o único
Legislador em questões litúrgicas. Liberdade cristã na liturgia não pode significar
desordem, arbitrariedade ou mania de sempre renovar o culto. Por outro lado,
Calvino não queria obrigar a consciência através de tradições humanas como a Igreja
Romana fazia. Nem queria legalismo na liturgia. O que está escrito expressamente
na Palavra nos obriga a observá-lo. Mas Calvino reconhecia que nosso Mestre não
quis prescrever minuciosamente o que devemos seguir e que Ele não julgou
“convir a todos os séculos uma forma única” (Institutas IV.X.3O). O próprio
Calvino serviu várias igrejas reformadas com modelos de culto que eram diferentes
em certos pontos.
O CULTO REFORMADO II
– ALGUMAS CARACTERÍSTICAS
Vamos estudar algumas
características do Culto Reformado. Certamente, o Culto Reformado não é
totalmente distinto de cultos em outras tradições protestantes. Por exemplo,
orar e cantar não são características só do Culto Reformado. Não há culto, em
igreja nenhuma, que não tenha orações e cânticos. Mas, sem dúvida, a estrutura
de um encontro dentro da aliança, a centralidade da pregação e o cantar salmos
se constituem elementos distintos do culto reformado.
Observação: neste estudo
trataremos apenas do culto público.
ENCONTRO DE DEUS COM
O POVO DA SUA ALIANÇA
Lemos em Levítico
23:3 esta palavra do Senhor: “Seis dias trabalhareis, mas o sétimo dia será o
sábado do descanso solene, santa convocação; ... é sábado do Senhor...” Este
verso nos ensina várias coisas sobre o culto:
— O culto é
caracterizado como santa convocação;
— O culto é
iniciativa do próprio Senhor;
— O culto é realizado
num dia especial, o Dia de descanso.
Este ensino nos
permite tirar algumas conclusões:
1. Encontro com Deus
Deus quer se
encontrar com seu povo. A palavra “convocação” tem a ver com reunião, assembléia.
Na linguagem evangélica de hoje temos termos como culto evangelístico, culto de
oração e culto de doutrina, mas o culto é antes de qualquer coisa o encontro
entre Deus e seu povo. É o único encontro que pode ser chamado de “santa convocação”.
2. Procedência do Culto
A palavra
“convocação” também significa que Deus nos chama para o culto. O culto vem de
Deus! O culto não é nossa iniciativa. Deus é, como sempre, o primeiro. O culto
é encontro de Deus com seu povo e, por isso, nosso encontro com Ele.
3. Objetivos do Culto Reformado
O culto como encontro
entre Deus e seu povo faz parte da Aliança de Deus. Nesta Aliança, Deus é o
primeiro, visto que Ele estabeleceu sua aliança (pacto) com Abraão, e não
Abraão com Deus. Deus criou um dia especial para o encontro com seu povo: o
sábado, chamado em Êxodo 31:13-17 de um “sinal da Aliança”. E Deus colocou o
culto no centro deste dia especial. Por isso, o Culto Reformado tem a estrutura
de um encontro em que os dois “partidos” ou “participantes” da Aliança agem e
falam. Não queremos falar do culto como um diálogo, porque o diálogo supõe
igualdade entre os participantes. Na Aliança de Deus não há igualdade. Deus é o
Soberano, e nós somos seus súditos. Nós não somos “sócios” de Deus. Mas podemos
dizer que o culto e a “conversa” de Deus com seu povo. Isto significa que Deus
fala primeiro! Nisto, o Culto Reformado é diferente do culto romano que coloca
o homem no primeiro lugar, com sua ação na missa. Especialmente Calvino sempre
enfatizou que o culto é primeiramente uma ação de Deus. E Ele que age e fala,
garantindo, dando e efetuando sua salvação. Mas é claro que Deus espera uma
resposta de seu povo: No culto, o povo de Deus também age. Mas esta ação é
sempre uma reação. A congregação reage à Palavra de Deus, dando sua resposta de
fé, cantando, confessando e orando, e, antes de tudo, escutando, recebendo
assim a salvação divina. Tudo isso constitui a primeira característica do Culto
Reformado: é um encontro de Deus com seu povo. É um encontro com dois grandes
objetivos: o de Deus é salvar seu povo, e o objetivo do povo de Deus é
glorificar a seu Deus.
CENTRALIDADE DA
PREGAÇÃO
Se Deus é o primeiro
no culto, sua Palavra deve ter o lugar central dentro do culto. Especialmente
agora, na Nova Aliança, na qual não há mais lugar para as cerimônias do antigo
culto de Israel. Deus usou aquelas cerimônias como figuras e sombras da
realidade que é Cristo. Por isso a carta aos Hebreus 1:2 diz que “nos últimos
dias Deus nos falou pelo Filho”. O Filho de Deus é chamado de o Verbo, a Palavra,
o Porta-voz do Pai. Deus se encontra com seu povo, no culto, principalmente
através da sua Palavra. Os Reformadores baniram as imagens porque Deus vem até
seu povo na sua Palavra. Só conhecemos Deus através da sua Palavra. Ele se
revela a nós em sua Palavra. Rm 10:17 nos ensina que é somente a Palavra que
opera nossa fé. No Culto Reformado, esta Palavra é lida e pregada. O próprio
Deus nos deu a leitura da Palavra dando-nos as Escrituras. Em várias partes da
Bíblia encontramos leituras da Palavra na reunião do povo de Deus. No culto da
Aliança, encontramos a cerimônia do derramamento do sangue da Aliança, mas
também a leitura do Livro da Aliança. O próprio Senhor Jesus fez a leitura
bíblica num culto, segundo Lc 4:17-20. Mas era a convicção de todos os
Reformadores que as Escrituras foram dadas por Deus, não somente para serem
lidas no culto, mas também para serem pregadas e explicadas. Para eles, a
leitura e pregação da Palavra eram inseparáveis. Já os profetas do Velho
Testamento pregavam a Palavra. O próprio Cristo deu aos apóstolos a tarefa de
ensinar aos discípulos de todas as nações (Mt 28:20). Os apóstolos falaram do
ministério da Palavra (At 6:4). A Palavra deve ser distribuída ou servida ao
povo de Deus. A Primeira Igreja permanecia na doutrina dos apóstolos (At 2:42).
Esta doutrina era o ensino pela pregação da Palavra. “Prega a Palavra”, Paulo
diz para o jovem pastor Timóteo (2 Tm 4:2). Pode ser claro que a própria Bíblia
mostra que a leitura da Palavra exige a pregação dela. No encontro com Deus,
Ele fala primeiro.
CANTAR SALMOS
O sacrifício da Nova
Aliança é o louvor diz Hb 13:15. Este louvor “é o fruto de lábios que confessam
o seu nome”. É a Palavra que nos faz conhecer e confessar o Nome de Deus. O
assunto da centralidade da pregação nos leva naturalmente ao louvor, que é
fruto da Palavra pregada. Como deve ser este louvor? Respondendo a esta
pergunta, encontramos uma característica do Culto Reformado: cantar salmos.
Especialmente o reformador João Calvino é responsável por esta característica.
Para ele, cantar salmos tem prioridade. Mas ele não sabia que Ef 5:19 e Cl 3:16
falam de “salmos... hinos e cânticos espirituais”? Claro que sabia. Por isso,
Calvino não defendia o uso exclusivo dos salmos nos cultos, como alguns
calvinistas pensam. Em sua primeira publicação litúrgica (1539), Calvino
ofereceu ao povo de Deus não somente alguns salmos rimados, mas também alguns
cânticos, baseados em trechos bíblicos. Na Igreja de Genebra se cantavam os Dez
Mandamentos e o Credo Apostólico! Calvino não era contra o uso de hinos, desde
que fossem baseados em versos ou trechos da Bíblia. Mas os salmos tinham
prioridade e Calvino fez questão de oferecer à Igreja todos os 150 salmos
rimados. Ele concordava com uma palavra de Agostinho: “Ninguém pode cantar de
modo digno perante Deus se não cantar aquilo que recebeu de Deus”. Por isso,
Calvino concluiu que não há cânticos melhores do que os Salmos de Davi porque
eles foram inspirados pelo Espírito Santo.
A MÚSICA NA
DISPENSAÇÃO DA LEI
O trono de Deus é
estabelecido em louvores e por isso a música existe desde o princípio e
permanecerá para sempre, pois o nosso Deus será eternamente louvado (Jó 38:4-7
e SI 115:18). A música é eterna. A música é um instrumento de louvor a Deus, um
meio de expressão e acima de tudo uma força dinamizadora de poder, energia e
vitalidade, capaz de exercer grandes influências não só nos seres humanos como
também nos animais e nas plantas. Schimichi Zuzuki, musicólogo contemporâneo
japonês, ao escrever um método de aprendizagem musical para crianças disse:
“Meu propósito principal, não é o ensino da música. O que aspiro é formar bons
cidadãos. Se uma criança escuta boa música, desde que nasce e aprende a
executar um instrumento, adquirirá sensibilidade, disciplina, retidão e nela se
formará um lindo coração”. O nosso propósito nesta lição é mostrar o que a
Bíblia nos ensina sobre a música e as suas funções na religião do povo de Deus.
O SIGNIFICADO DA
MÚSICA PARA OS JUDEUS
A Bíblia nos informa
que a música sempre esteve presente na vida da nação judaica, como seu melhor
meio de expressão. Daí a razão dos maiores eventos da história de Israel
acharem-se registrados em cânticos (p. ex. Êx 15:1-21 e SI 126). “A história dos
Judeus contém inúmeros acontecimentos em que a música desempenha relevante
papel, desde as muralhas de Jericó que caíram ao toque das trombetas, até o
cuidado dispensado à música do grande templo de Jerusalém. Esse povo, que mostrava
inclinação para a escultura e pintura e a quem era proibido representar a Deus
por imagens, concentrou toda a sua força criadora na poesia e na música que serviam
por excelência à religião” (Kurt Pahlan). Foi no reinado de Davi que a música
teve o seu maior desenvolvimento e, elevada ao nível de ministério, tornou-se
exclusiva da religião. Davi sendo rei, músico e poeta, criou técnicas para
fabricação de instrumentos, desenvolveu a arte do canto, com formas ainda
usadas nas igrejas e instituições musicais em todo mundo e estruturou o
ministério da música a serviço da religião, até hoje não superado.
COMO O MINISTÉRIO DA
MÚSICA FOI ESTRUTURADO NA DISPENSAÇÃO DA
LEI
A música foi
instituída no culto por Deus, no reinado de Davi (2 Cr 29:25). Sendo Davi
músico e conhecedor do valor da música na vida de seu povo e da religião, passou
a desenvolvê-la em termos de ministério, através do desempenho de quatro mil
músicos com os seguintes critérios e funções:
1. Critérios:
1.1. Escolha (1 Cr 16:4,5) Os quatros mil
não foram alistados por vontade própria, mas por vontade de Deus.
1.2. Purificação Escolhidos da tribo de
Levi, por exigência do próprio Deus, eram purificados para exercerem as funções
determinadas no seu ministério (Nm 8:6).
2. Funções:
2.1. Louvar (2 Cr 8:14 e 1 Cr 16:4,5)
2.2. Profetizar (1 Cr 25:1-3)
2.3. Ensinar (1 Cr 15:22 e 25:5-7)
2.4. Santificar (2 Cr 29:5)
Queremos destacar
dentre as funções, o ensino da música e o desenvolvimento do canto. Davi
juntamente com Quenanias e mais duzentos e oitenta e oito mestres criaram
formas e desenvolveram técnicas de canto que até hoje são usadas em todo mundo.
Vejamos alguns exemplos:
Ne 12:8 – Regência de
canto coletivo congregacional;
Ne 12:42 – Regência
dos cantores ou coral;
1 Cr 15:21 – Uso de
instrumentos adaptados ao acompanhamento do canto.
Pela necessidade de
tempo para a boa formação e bom desempenho do músico, o trabalho era permanente
e de dedicação exclusiva. Davi, sendo músico, foi sensível a essa necessidade
(1 Cr 9:33 e 6:31-32). A manutenção dos músicos era através dos dízimos e
ofertas, porque o ministério fazia parte do sacerdócio, sob a responsabilidade
do rei (Ne 12:46-47; 10:37,39; 13:10,12,14).
A MÚSICA NA
DISPENSAÇÃO DA GRAÇA
Depois de um silêncio
de quatrocentos anos entre os céus e a palestina, a música volta a aparecer
como serva fiel da religião, fazendo-se cumprir as palavras cantadas pelo
salmista: “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos
verão isso e temerão e confiarão no Senhor” (SI 40:3). O novo cântico da graça
e do amor brotou nos corações dos escolhidos como prenunciadores das novas de
Salvação: “Magnificat” (Lc 1:46-55), “Benedictus” (Lc 1:68-79), “Glória
in ExceIsis Deo” (Lc 2:14) e “Nunc Dimitts” (Lc 2:29-33). E a
partir de então, os corações dos crentes romperam em cânticos, pela experiência
da graça de Cristo, como jamais cantaram e deixariam de cantar. Conforme o
testemunho de Plínio (109 A.D.), o cristianismo passou a ser chamado “a
religião do canto”.
A ATITUDE DE CRISTO
EM RELAÇÃO À MÚSICA
A arte da música e do
canto entre o povo de Israel, não se extinguiu com a dispensação do Velho Testamento.
E é evidente, que na época de Jesus, a música continuava com as mesmas funções
estabelecidas por Deus, a serviço da religião. Por muitas vezes, Jesus foi
visto, participando dos cultos e das festas solenes no templo, sem jamais, em
qualquer ocasião proferir palavras de censura ou reprovação aos cânticos
entoados. Os discípulos e a multidão O aclamaram com cânticos por ocasião da
sua entrada triunfal em Jerusalém (Lc 19:37). Possivelmente, Jesus cantou
muitas vezes em sua vida. No entanto, a Bíblia faz referência especial à
ocasião da Ceia, quando ele incluiu a música, consagrando-a a serviço do culto
cristão (Mt 26:30; Mc 14:26). A partir daquele momento, o ministério da música,
na nova dispensação, era estabelecido como meio de expressão de fé e manifestação
da graça divina através de Cristo.
COMO O MINISTÉRIO DA
MÚSICA FOI ESTRUTURADO NA DISPENSAÇÃO DA
GRAÇA
Cremos firmemente que
o canto de glorificação a Deus cantado por Jesus, na Ceia, antes de ir para o
Monte das Oliveiras, teve um sentido de resgate da música do Judaísmo para o
cristianismo (Mc 14:26). A música expressão de fé, dom da graça divina e
liberdade do evangelho, em Jesus, passa a pertencer ao “sacerdócio real” (1 Pd
2:9) ou ao reino e sacerdotes de Deus (Ap 1:6). Portanto, no Novo Testamento, a
música se apresenta com uma estrutura nova e específica mas como um resultado
ou aplicação do que ela foi no Velho Testamento. O apóstolo Paulo, por formação
acadêmica, também sabia música e como doutor da lei, era grande conhecedor do
ministério criado por Davi. Portanto, com conhecimento e sabedoria, orientou as
igrejas com os mesmos princípios estabelecidos no Velho Testamento.
1. Em Relação aos Critérios
Na dispensação da lei
a música era ministrada pelos levitas, cujos critérios eram: escolhidos e
purificados (1 Cr 16:4-5 e Nm 8:6). Na dispensação da graça é sacerdócio dos
crentes, cujos critérios são: eleição e santificação (Ef 1:4 e 1 Ts 4:7).
2. Em Relação às Funções
Na dispensação da Lei
as funções da música, exercidas pelos levitas, eram: louvar, profetizar,
ensinar e santificar. Na dispensação da graça as funções da música exercidas
pelos crentes, são:
2.1. Louvar – “louvando com salmos, hinos e
cânticos espirituais” (Cl 3:16 e Ef 5:19).
2.2. Profetizar – “Habite ricamente em vós a
palavra de Cristo” (Cl 3:16). Os levitas
músicos transmitiam a
palavra recebida de Deus (2 Cr 20:14). Os músicos crentes transmitem a palavra
revelada como regra de fé e prática da vida.
2.3. Ensinar – “...instruindo-vos uns aos
outros com salmos, hinos e cânticos espirituais” (CI 3:16). O preparo e a
eficiência foram as grandes características do ministério da velha dispensação.
Nele havia mestres como Asafe, Jedutum e muitos outros que, além de Davi, compuseram
cânticos que não só edificaram o povo de Israel no passado, mas que até hoje
edificam o povo de Deus.
2.4. Santificar – “Edificando-vos com
salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl 3:16).
Na dispensação da
lei, os músicos eram ordenados a se santificarem. Na dispensação da graça, os
crentes são eleitos para receber a marca da santificação que se expressa pelo
testemunho de vida e pelo louvor. Deve existir coerência entre o que se vive e
se canta.
A MÚSICA NOS NOSSOS
DIAS
TEOLOGIA E MÚSICA
Podemos dizer que
existe uma única música certa para aquele específico lugar no culto. Não serve
qualquer música em qualquer lugar. Tem que ser aquela. Pode ser até uma única
estrofe. Naquele lugar tem a finalidade única de reforçar o que foi dito,
tornar claro, subsidiar a Palavra. Disse Lutero: “em nome da Teologia, concedo à
música o lugar maior no culto”. Ele não está dizendo que a música é mais importante
que a Palavra, ou que a Teologia. A música tem que ser subsídio para a Palavra;
se não for, ela estará fora do contexto. “Hoje o conjunto ‘Fulano de Tal’ vem aqui
abrilhantar o nosso culto”. Por que? O culto não precisa ser abrilhantado. O culto
não é uma festinha de aniversário. É fácil de perceber nos nossos dias uma confusão
entre culto e festa. No Velho Testamento era mais fácil de se ver a distinção,
porque existiam festas litúrgicas e momentos de adoração e sacrifício. Eram
coisas diferentes. A festa era horizontal, era a hora de se alegrar no Senhor. Todo
mundo se alegrava. Esta era a hora dos instrumentos, das danças, dos
cânticos. Às vezes
até no espaço do templo, inclusive, mas eram festas. Mas o culto sacrificial, o
sacrifício, nem alegre era. Hoje temos misturado as coisas: Temos culto do
pastor, culto do bebê, culto de formatura, culto das mães. Isso nos parece,
criar algumas dificuldades para nós mesmos estabelecermos os limites. Até onde
é “da mãe” e até onde “é de Deus”? Como vamos preparar o programa do culto e o sermão?
OS BABILÔNIOS DE HOJE
Ouvimos muitas vezes
pastores dizerem: “a gente precisa manter os jovens na igreja, os cultos
precisam ser atraentes. Eu odeio essa música, mas tenho que deixar...” e quando
cantam, muitos falam: “ainda bem que eles estão aqui, não estão no mundo”. É
porque eles “estão aqui” que precisam fazer melhor que lá fora. Já houve uma
época na nossa história reformada em que a música que acontecia nas igrejas era
a melhor que se produzia naquele lugar. No séc. XVII, no séc. XVIII e no início
do séc. XIX, se alguém visitasse uma cidade européia e quisesse ver e ouvir o que
de melhor aquela população produzia, iria para a igreja. Lá havia a melhor música
e a melhor arquitetura. Os músicos da corte do palácio iam lá aprender com os
músicos da igreja. Havia uma romaria enorme até a cidade de Leipzig para aprender
com Bach. Bach passou 45 anos de sua vida trabalhando como músico de uma
única igreja (a igreja de St. Thomaz, em Leipzig). Sua obra inteira foi S. D.
G. (Soli Deo Glori). Ele assinava assim. Essa era a sua finalidade; por isso
ele fazia o melhor que podia, exatamente porque era para a Glória de Deus.
O músico do palácio podia fazer de qualquer jeito porque fazia para ganhar
dinheiro, era só para honrar o rei. Mas na igreja era o melhor que se podia
produzir porque era para Deus. Percebe-se que mudamos radicalmente: estávamos
na dianteira absoluta, e hoje isto mudou muito. Hoje nós estamos
desesperadamente correndo atrás da música secular, para imitá-la, para ver se
conseguimos manter o jovem dentro da igreja. É por isso que o povo não se
importa mais com o nosso cântico de Sião. Os babilônios queriam ouvir o
cântico de Sião, eram tocados em outros instrumentos, eram outros cânticos que
não era o deles. Os babilônios (as pessoas fora da igreja) de hoje “não estão
nem aí” com a nossa música. Hoje há várias rádios “gospel” tocando música o dia
inteiro e não tem diferença nenhuma das outras (no sentido do estilo musical).
MÚSICAS BOAS E RUINS
Mas a música continua
tendo dois papéis no culto. O de impressão, de atmosfera, que ela já faz só com
o instrumental. Mas o seu papel central no culto é o de expressão – é subsidiar
o texto. E isso só acontece quando há um bom casamento entre os dois. Cada
elemento diferente da música mexe com uma parte diferente do nosso organismo e
isso faz com que sejamos integralmente atingidos, quer queiramos quer não, quer
estejamos ouvindo ou não, quer sejamos perfeitamente hábeis, auditivamente, ou
surdos completamente. A música consegue ser ouvida epidermicamente. A música
influencia pessoas completamente surdas e altera o seu comportamento. Se
delinear na mente de alguém a idéia de que estamos defendendo a música do
hinário em detrimento dos novos cânticos (corinhos), ou defendendo coral em
detrimento de conjunto, isso absolutamente não é verdade. Entendemos que
existem hoje, muitas músicas novas boas e muitas ruins. A maior parte ruim por
uma razão simples, porque elas ainda não foram filtradas pelo tempo; o tempo é
um ótimo filtro. No séc. XVII também foi produzida muita coisa ruim, mas foi
embora. Só ficaram as melhores. Existem muitas músicas novas boas sendo produzidas
e, por outro lado, nos nossos hinários, existem muitas músicas que não são tão
boas assim. Não é pelo fato de estarem no hinário que são boas. Como líderes,
temos obrigação de analisar cuidadosamente os textos das músicas que estão nos
hinários, dos hinos que vão ser cantados. Estamos, muitas vezes, cantando
coisas impressas nos hinários em que nem sempre acreditamos.
MÚSICA CERTA NO LUGAR
CERTO
A nossa visão do que
seja a música incorporada no momento de culto é que haja, primeiro, um trabalho
muito consciente do líder na escolha do que vai se cantar; depois, aonde vai se
cantar. Gostaríamos de esclarecer um ponto em que a gente faz certa confusão.
Existem hinos que são herança dos séculos XVII e XVIII, alguns são de estilo
coral; alguns desses corais eram compostos e tinham cerca de 42, 43 e até 50
estrofes. Essas estrofes eram cantadas de acordo com o período por que se
passava naquele momento. Por exemplo, se era uma época de Natal, cantava-se o
trecho do hino que falava sobre o Natal. Muitas vezes, muitos desses hinos, são
hinos que contam todo o plano da salvação. Esses hinos não foram compostos para
ser cantados inteiros. Se você pegar o saltério de Genebra, por exemplo, que
era o hinário de Calvino, ou o cancioneiro de Witemberg, de Lutero, vai
encontrar muitos desses hinos. No saltério de Genebra vai encontrar o Salmo
119, inteirinho. Ninguém o cantava inteiro, evidentemente. Cantavam-se trechos
dos hinos, os trechos que tinham mais a ver com aquele momento de culto.
Perdemos um pouco disso a partir do momento em que se passou a ter uma nova
visão do hino: o hino apenas como subsídio musical do culto; canta-se o hino
sem se preocupar com a letra. Se o culto está muito longo e o hino tem quatro
estrofes e o coro, cantamos a primeira, a segunda e a última. Nunca a terceira.
Mas às vezes a última começa com um “então”. “Então”, por que? Porque é a
continuação da terceira. A nossa proposta é que cantemos as estrofes que servirem
para aquele momento de culto. Pode até ser somente a terceira, se for a estrofe
que sirva para aquele momento. Evidentemente, há hinos que não têm como ser
partidos. Eles têm começo, meio e fim. Mas há muitos que são absolutamente compartimentados,
eles foram pensados assim, para serem usados
compartimentados.
Vocês devem estar percebendo que isso exige trabalho e uma leitura cuidadosa.
PARÊNTESE NO CULTO
Quando começarmos a
excluir isso, as coisas ganharão uma nova dimensão. Por exemplo, quando o grupo
de jovens deixar de ser parêntese de culto. Por que é parêntese? Começa o
culto, faz-se a leitura, e então passa-se ao momento de louvor. Abre-se o
parêntese: o grupo vai para frente, afina os instrumentos e dirige o louvor.
Canta-se uma vez uma música com todos, depois só as mulheres, então só os
homens, explica-se o que o Espírito Santo faz na vida do crente; depois mais um
cântico, mais um, outro mais. Quarenta minutos depois, todo mundo em pé,
fecha-se o parêntese e o dirigente diz: “agora vamos continuar o nosso culto...”.
Esse é um grande erro, e é recente em nossa história cúltica. Quando nós todos
éramos crianças, não havia isso. Isso começou a acontecer no final do séc. XIX,
quando algumas denominações enfatizaram tremendamente o acampamento de jovens.
Nasceu daí uma música especial para esses tipos de reuniões; chamados corinhos;
mas a força maior surgiu, na verdade, nos anos 80, quando os acampamentos
reuniam uma quantia muito grande de jovens e para esses acampamentos
compunham-se e cantavam-se determinado tipo de música que não tinha nada a ver
com a música que se cantava regularmente nas igrejas. Esses jovens passavam lá,
um final de semana e quando chegavam na igreja queriam, com a maior das boas
intenções, trazer aquela atmosfera, aquilo que sentiram lá no acampamento e a
música que aprenderam e cantaram lá. Nessa mesma época, as nossas igrejas não
estavam aparelhadas para oferecer um tipo de música alternativa de boa
qualidade para os jovens.
MÚSICA SACRA OU
PROFANA?
A geração dos anos 10
e 20, ou parte dela foram convertidas ainda pelos primeiros missionários ou,
quando não, pelos herdeiros dessa conversão. Essa geração, e a geração que veio
imediatamente depois foi uma geração conversionista, ou seja, convertida, isto
é, os nossos avós que freqüentavam a igreja evangélica, já tinham sido
católicos antes de se converterem. Quando eles se converteram, cantaram um tipo
de canção completamente diferente de tudo que eles tinham ouvido até então. Quando
os nossos avós cantaram os hinos dos Salmos e Hinos (o primeiro hinário traduzido
integralmente), eles se consideravam cantando música absolutamente sacra,
porque aqueles sons nunca haviam sido ouvidos antes. Não interessa se era, até
mesmo, uma música de bar americano. Aqui é um terreno complicado porque toca
mesmo no que é música sacra e o que não é música sacra. Modernamente, definimos
música sacra para um grupo; é impossível definição de música sacra genérica,
por uma razão muito simples: o sacro, na verdade, aquilo que é verdadeiramente
aceito por Deus, não tem nada a ver com a qualidade dos sons; tem a ver com o
coração e lábios limpos, tem a ver com o cantante, e com Deus. O estilo que
está soando no espaço é mais ou menos convencional para um grupo de pessoas,
isto é, se é sacro ou não para aquelas pessoas que estão ali. Cuíca é um
instrumento sacro ou profano, na sua cabeça? Profano! Por que? Porque associamos
com o carnaval. Agora, leva essa cuíca para o Tibet, converta os tibetanos e
diz a eles que esse instrumento vai iniciar todos os Cultos ao Senhor. “Esse
som vai ser o introdutório do culto”. Pronto, a partir de então, aquilo lá vai
ser o som santo por excelência, sacro por excelência. A cuíca não é menos santa
do que o violino. O violino é feito de madeira, tripa e metal. A cuíca é feita
de madeira, pele e metal. “Igualzinho”. Materialmente, não há diferença.
Portanto, temos que pensar o que vale para as músicas. Temos ouvido muito isto:
algumas igrejas cantavam “passarinhos, belas flores”, (hoje já não canta mais),
isso era música de bar americano. Era mesmo, só que ninguém sabia que era.
Aquele som nunca havia sido ouvido aqui; aquele tipo de melodia foi
identificado pelos nossos avós, bisavós, como música sacra. Por que? Porque ela
era diferente da que eles cantavam nos bailinhos de final de semana, ou na
igreja católica que eles freqüentavam. É exatamente isso que hoje é usado como
critério para definir, para um grupo sócio-cultural, o que é música sacra: é
diferente da música que aquele grupo conhece, fora do templo. Esta é a primeira
característica de música sacra, naquele momento histórico. A segunda é que ela
é, basicamente, acompanhamento para a Palavra. Quando eles cantavam aquele tipo
de música aquilo era, para eles, música sacra. Pode ser que para os nossos dias
não seja mais. Quando o coro ou a congregação canta um hino, muitos se sentem
elevados com essa música sacra. Certa vez uma família alemã que veio passar
férias no Brasil e foi a uma igreja, e o coro levantou e começou a cantar um
hino, eles ficaram assombrados, porque esse era o hino nacional alemão, que
Hitler obrigava todo mundo a aprender. Mas isso não quer dizer que a melodia que
está lá é ruim. Era Haydn, uma maravilha. Mas quando ficamos sabendo da sua raiz,
então complica. Outro exemplo é o hino “Grande é Jeová”. Quer música mais sacra
que esta? Mas isso é Tannhäuser, uma ópera de Wagner, e nessa ópera, o cavaleiro
rapta a princesa da torre, com nem um pouco de boas intenções, bota-a debaixo
do braço e vai embora. O mesmo acontece com o “Largo” de Handel que todo
solista gosta de cantar. Quer coisa mais santa? Só que aqui é o rei Xerxes, embaixo
da macieira, olhando a pessoa que iria conquistar e agradecendo a sombra da
macieira. Isto não é sacro (estamos falando da melodia e não da letra da
música). Percebe-se, portanto, que essa é uma questão muito complicada e elas
só são resolvidas exatamente assim: música sacra é aquela, para aquele grupo
sócio-cultural, diferente da sua secular, ou seja, a música sacra é a diferente
da que, naquele momento, é secular.
MÚSICA DE IMITAÇÃO
Será que a nossa
música tem que ser uma imitação da música secular? Não! Será que, então,
estamos defendendo aqui que devemos cantar somente os velhos hinos dos
hinários? Também não. Será que estamos dizendo que os jovens não têm participação
no culto? Também não. Gostaríamos muito de ver outra vez a música da igreja
liderando o movimento cultural, que ela fosse melhor e nitidamente melhor. Isso
não é impossível. Temos visto isso acontecer em outros lugares, não no Brasil. Nós,
infelizmente, no Brasil, tivemos uma censura, uma lacuna muito grande. Quando
os jovens procuravam por uma coisa nova não tinham isso sendo fornecido. A
geração dos anos 30 cantou os hinos do hinário sem problemas; a dos anos 40, também,
mas já cantou um ou outro corinho; a dos anos 50 cantou mais corinhos; a dos
anos 60, só cantava corinhos; a dos 70 não quer cantar nada que não sejam as músicas
novas. Por que? Porque quando a geração dos anos 50 e 60 procurou alguma coisa,
não encontrou; os músicos sacros; se haviam, estavam calados; não havia ninguém
compondo hinos, que pudesse ao lado do hinário, parecer como uma alternativa
boa. Porque é muito fácil a gente falar para o jovem: “isso é uma droga”. Difícil
é falar: “isso é melhor que isso” e fazê-lo sentir que é melhor mesmo. Temos
visto muito nas nossas igrejas pessoas falando assim: “O rock não pode”. “Por
que?” “Porque não”. “Mas por que não?”, “Porque é do diabo”. “Mas por que é do
diabo?” “Porque é”. Isso é resposta? “Esse tipo de música não pode por causa disso,
disso, e disso”; “porque tem uma outra muito melhor, ouça”. Onde está essa parte?
Não é só criticar: “esse conjunto de jovens é uma droga”. É mesmo, muitas vezes,
mas onde está um melhor? Falta mostrar como fazer melhor, como fazer diferente.
Pegar essa criatividade que está ai e multiplicar isso. Se for verdade que nos
últimos anos a produção de música nacional sacra não esteve muito boa, para oferecer
uma alternativa satisfatória, quem sabe os próximos anos serão melhores. A
geração passada quando quis cantar coisas novas não encontrou nada. Ou cantava
as coisas velhas ou importava. E importou, num primeiro momento, dos Estados
Unidos nem sempre as melhores coisas; num segundo momento imitou aquela música.
Nas primeiras gravações de grupos alternativos jovens no Brasil, você tem
música americana, autenticamente americana, traduzida para o português. Música
jovem americana. Num segundo momento, música escrita no Brasil por eles mesmos,
mas imitando o estilo que havia sido importado. Num terceiro momento, nacionalismo
exacerbado; que condena tudo o que é importado e surgem os grupos superalternativos,
proclamando que tudo que vinha de fora, em princípio, não prestava; a gente
tinha que fazer uma coisa que fosse só nossa. É ai que se esbarrava num problema
sério: de convencer o pessoal do Sul a cantar baião; isto é uma loucura, porque
aquilo não era deles na verdade. Nós estamos tão fragmentados nessa questão
cultural, que para o pessoal do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o coral
alemão era muito mais música deles do que baião.
BOA PERGUNTA: E
AGORA, O QUE A GENTE FAZ DOMINGO QUE VEM?
A primeira coisa: já
vai melhorar muito quando lermos os textos dos hinos (seja dos hinários ou
corinhos) cuidadosamente, e isso não é fácil de fazer: ler o texto criticamente
quer seja um dos novos ou do hinário. É muito difícil porque: primeiro, quando
lemos um hino impresso, lemos com respeito, pois consideramos uma palavra “meio
inspirada”; temos dificuldade em criticar, ainda que esteja péssimo em linguagem
e Teologia; a segunda dificuldade que temos em relação aos hinos é que muitos
deles nos acompanham há muito tempo, então, estamos muito ligados emocionalmente
a eles. Temos uma ligação emocional que não nos permite ser racionais, muitas
vezes, para fazer uma análise honesta daquele texto. Se conseguirmos fazer isto
seriamente, sempre, tanto com os hinos do hinário como com os novos, num
primeiro momento; e, num segundo momento, feito esta seleção, encontrarmos o
lugar “certo” deles acontecerem; e ao invés de um pacote de 40 minutos de
música, usaremos dentre aquelas 6, 7, ou 8 músicas selecionadas, aquela certa
para o momento certo, então o nosso culto passa a ter coerência e as pessoas
começam a ter a sensação de começo, meio e fim. E isso já melhora no domingo
que vem! E depois, entendemos que a função dos líderes nas igrejas tem que ser
despertar nas pessoas vocacionadas para a música o senso de responsabilidade de
que estão fazendo uma coisa muito séria. Descobrir essas pessoas e levá-las
para frente. Para frente não quer dizer para frente da igreja, para tocar. Quer
dizer: “levá-las a aprender”. Ninguém tem mais desculpas de que não tem onde
aprender. Há cursos ótimos, professores ótimos, em muitos lugares. É preciso
resgatar a importância de se aprender música, que se perdeu na nossa cultura.
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